quinta-feira, setembro 15

Impeachment sem crime?

Impeachment sem crime? Não concordo. Os “crimes” estavam todos ali. Uma advogada, que enterra os princípios básicos do direito e “advoga” em nome de Deus e da parcialidade. Aliás, o mesmo Deus capitalista que sustenta nos poderes de um Estado, hipocritamente, laico Felicianos e Bolsonaros.  Um processo que só é aceito porque ela não aceitou sujar suas sempre limpas mãos. Porque ela não cedeu às chantagens, não negociou com bandidos. Um processo aberto em prol das mãos sujas da corrupção. Golpe cingido pela parcialidade: o relator nada mais é do que o boneco de ventríloquo do candidato derrotado nas eleições. Há que se entender que um menino mimado ao extremo, na infância, não se desfaça dos seus bonequinhos e brinquedinhos quando na vida adulta. O que não se pode compreender é como um país permite que se brinque de maneira tão leviana com as suas instituições. Aliás, quais delas hoje têm credibilidade? E o que dizer do procurador, que imerso em parcialidade, achava-se no direito de testemunhar, mesmo que para isso tivesse que cuspir nos princípios que alicerçam sua profissão?
Um Supremo Tribunal que poderia ter cassado/caçado o bandido antes que cometesse crimes ainda maiores, mas preferiu colocar-lhe a arma nas mãos. Uma câmara de deputados que reverencia ditadores e torturadores. Um senado que acomoda, confortavelmente, bandidos dos mais variados tipos: desde os fazendeiros escravagistas, passando pelos donos de veículos que transportam cocaína ( aliás, está acenou para as câmeras, em meio aos senadores, durante o processo do golpe) aos chefes de aeroportos ilegais, aos defensores do massacre dos professores no sul, até chegar aos  muitos  recebedores de propinas.
E o que dizer daqueles que saíram às ruas clamando por limpeza enquanto vestiam o nosso verde e amarelo mais sujo, sem ao menos entender a correlação?
Não há como elencar quantos os crimes existentes. Mas dá para ter a certeza absoluta de que o golpe travestido de impeachment apresenta para o mundo o Brasil da hipocrisia. E que dizer do interino? Passa de vice- decorativo a fantoche do golpe tramado nos bastidores fétidos do poder.

É uma pena que nada disso passou na televisão. Assim os alienados de verde e amarelo nem se darão conta que, de alguma forma, sua ignorância, bancou a corrupção. 

quinta-feira, abril 28

Como explicar para uma criança o que está acontecendo no país?

Como explicar para uma criança o que está acontecendo no país?
“-Mamãe, hoje na escola estava todo mundo xingando a Dilma, eles dizem que ela roubou o Brasil, mas você diz que não.”
“-Mamãe, hoje gritaram na sala: ‘Fora Dilma’ e a professora não fez nada. Então, ela também deve pensar assim. E, como ela é professora, deve estar certa.”
“-Hoje o professor de educação física falou mal da Dilma.”
“-Por que você torce para a Dilma, mamãe? Não acredito quando você diz que o Cunha e o Aécio fizeram coisas tão erradas. Se fosse verdade a polícia prenderia eles. A polícia não iria deixar ladrões soltos.” 
“-Se o Aécio fosse o vencedor, você iria respeitar?”
“-Você diz que o jornal da Globo conta mentiras.  Jornal pode mentir?
“- Se o juiz disse que o Lula é ladrão, não pode ser mentira porque um juiz não iria mentir. Você sempre diz que é mentira, mas, então, por que querem prender o Lula?”
“- Hoje eu ouvi que a Dilma já foi presa, o que ela fez para ser presa?”
Ao tentar responder algumas das milhares de perguntas do meu filho, o que fica, cada vez mais, em evidência é a fragilidade de todas as nossas instituições:  Como pode um juiz mentir? Como pode a polícia não prender o ladrão? Como pode uma escola compactuar com o golpe?  Na cabeça de uma criança, não faz o menor sentido essa inversão. Infelizmente, para muitos supostos adultos, condenar uma inocente para inocentar milhares de ladrões é a lógica correta.


segunda-feira, abril 4

Eu não nasci Amélia, eu nasci mulher

Eu não nasci Amélia, eu nasci mulher.
E quando digo que eu te amo, é o amor de quem nasceu com identidade própria que eu derramo em você.
O calendário que eu sigo é o criado por mim.
O meu relógio bate pra atender a um tempo que é nosso, mas não gira ao redor de um mundo que é só seu.
Eu nasci pra construir junto e não para exaltar o seu próprio umbigo.
Umbigo por umbigo, eu tenho o meu e é com ele que eu fico.
Eu não te amo como quem lava, passa, cozinha ou costura,
apesar de saber exatamente cada ponto que uma agulha passada na linha é capaz de dar.
Eu te amo como dona da minha própria casa,
Como quem sabe o peso de cada tijolo que teve que carregar.
Eu te amo como quem troca a cama de solteiro pela de casal.
O amor que mora em mim é de cúmplices, de dois.
Duas bocas, duas vozes, dois corpos que se encontram pra continuar formando dois.
Dois rios que desembocam no mesmo mar, mas que não se perdem em oceano.
Eu te amo como quem sabe que quer você como homem, sem querer deixar a mulher que fala forte em mim se calar.

sábado, novembro 14

A lama que soterra o Brasil/ Quem determina quanto “Vale” a vida nesse país?


É estarrecedor ver a imprensa brasileira noticiar o rompimento da barragem em Mariana valendo-se da palavra tragédia. À tragédia competem desgraças inevitáveis, cujo destino é o maior responsável. No caso do rompimento da barragem de “responsabilidade” da Samarco, juntamente à Vale e à australiana BHP, o adjetivo trágico não qualifica. Nesse caso, para entender os verdadeiros motivos da irresponsabilidade acontecida em Bento Rodrigues, é preciso perscrutar o mar de lama que encobriu a Vale nas últimas décadas e, quem sabe assim, alguns nomes possam emergir do barro em que se afundam em prol da elevação do capital ao mais alto patamar. Nesse sentido, faz-se necessário desenrolar um novelo histórico para trazer a lume personagens que, há tempos, lutam para submergir o Brasil em águas lamacentas: A quem pertencia a Vale anteriormente ao mandato de FHC? Por que se lutou tanto pela sua venda? Foi ela vendida ao preço que valia à época? Por que a honesta mídia brasileira faz questão de omitir o vínculo entre a Samarco e a Vale? Quem patrocina a mídia no Brasil? Quem determina quanto “Vale” a vida nesse país?
 Imbricadas às questões aqui trazidas estão as respostas que direcionam para o que efetivamente aconteceu e, infelizmente, ainda acontecerá no Brasil.  E é triste perceber que os nomes perscrutados são os mesmos que lutam, com as mãos ainda  sujas de lama, pela venda de mais uma estatal: a  Petrobras. Para entender por que a memória de tantos seres humanos inocentes continuará sendo cruelmente engolida pela lama, há que se fazer emergir memórias outras. Há que perceber que todo rio tem seus afluentes, que a água que amanhã desembocará no Espírito Santo, teve sua nascente em outro estado. Para entender Bento Rodrigues é preciso entretecer nascente, afluentes e foz. Somente dessa maneira, entender-se-á que o mar de lama que hoje encobre a cidade mineira, teve sua nascente para além das águas de Minas Gerais. Dessa maneira, perceber-se-á que as nascentes nem sempre são minas de água, muitas vezes as fontes encobrem outras minas.

Ao que parece, na maioria das vezes, a privatização coloca o capital, principalmente o estrangeiro, em um altar, posto para além das correntezas, enquanto seres humanos inocentes são, cotidianamente, varridos pela lama. 

quarta-feira, setembro 16

Quando a mulher incomoda...



Independentemente de opções partidárias, sempre que ouço os ataques à fala da presidente Dilma, a questão sobre qual é a importância, para um país cujas bases são escravagistas e que tem como um dos pilares o machismo, da primeira figura feminina no cargo de maior representatividade do país, me vem à cabeça.
Ao que parece, a imagem de poder feminino, aciona o histórico do patriarcalismo brasileiro que, por mais que nos esforcemos para superar, ainda persiste: a figura feminina no poder confronta o machismo fundante da nossa sociedade patriarcal. Muitas das vozes que fazem coro contra a presidente Dilma parecem entoar um contradiscurso não somente às políticas que rasuram a manutenção de privilégios angariados por uma elite ao longo de séculos, mas principalmente, à imagem de mulher que ela representa. O Brasil patriarcal não sabe como lidar com a figura feminina que foge aos padrões historicamente construídos e calcados no preconceito.  Se o problema fosse somente de ordem política, as muitas vozes que se emergem, contrariamente ao discurso da presidente, combateriam as propostas e implementações das políticas do governo, mas o que se vê é que, para além de guerrear contra as políticas afirmativas do governo, há explicitamente, um ataque a representatividade feminina no poder. Atacam-se não somente as políticas públicas, mas a imagem de mulher por trás dessas políticas. E os ataques, angariados pelo patriarcalismo, vem abarcados por ofensas pessoais dirigidas à mulher que alcançou a presidência e, por um desejo enorme de calar a voz feminina que, durante séculos, se quis silenciada.
A figura feminina no centro do poder incomoda exatamente porque desconstrói discursos com os quais muitos de nós ainda insistimos em compactuar. E quando essa mulher tem um passado político simbolizado por lutas em prol de conquistas democráticas; quando essa mulher é a representação da resistência feminina à crueldade de um regime ditatorial; quando essa mulher reconquista a liberdade não só para si, mas para uma nação, ela incomoda ainda mais.
A imagem de mulher que ainda se quer constante por muitos brasileiros é a que repisa o Brasil escravagista e patriarcal: a imagem da mulher cujo corpo era objeto, simultaneamente, de desejo e exploração; a mulher que remonta às crueldades do colonialismo científico e à Saartijie Baartman, símbolo da menina escravizada, cujo corpo foi exposto em museus, abarcando a falácia do exotismo do corpo negro.
Infelizmente, ainda somos o país que olha para a figura feminina somente enquanto corpo. Não somos o país que ressoa o discurso de abarcar as mulheres mais lindas do mundo cujas avantajadas bundas (o que, não coincidentemente, retraz Saartijie Baartman e o cruel legado escravagista acerca do corpo feminino) são o símbolo e a preferência nacional? Não somos o país que, cotidianamente, violenta a mulher e ainda a culpa pelas violências sofridas?

Diante da perspectiva de um Brasil cujo legado é machista, quando uma mulher prova que mulheres não são de silicone, quando ela contesta a cruel ideologia machista que vê na mulher somente um corpo,  realmente, ela, ainda, incomoda bastante.  

terça-feira, agosto 25

Brasil: o país da hipocrisia

Há clichês que reverberam em solo brasileiro há décadas e parecem muito mais camuflar a realidade do que ressoar o que efetivamente somos.  Reverbera-se que Deus é brasileiro, que o Brasil é o lugar da tolerância, que não há melhor lugar no mundo para se viver do que aqui, já que aqui não há guerras, que o povo brasileiro é diferenciado, etc. Os argumentos que justificam tais premissas são tão rasos quanto a capacidade de ler o mundo de quem os pronuncia.
 Ao que parece, somos leitores medíocres de nós mesmos ou à luz do que prenunciou Sérgio Buarque de Holanda, somos cordiais por natureza.   Desde sempre, cumprimos a risca a assertiva buarqueana, firmando, assim, o Brasil como o país da cordialidade. Cordialidade que encobre toda a nossa hipocrisia; que cria uma espécie de carapaça assegurando-nos a cometer as maiores atrocidades em nome da máscara da famigerada simpatia brasileira. A cordialidade que, historicamente, nos veste encobre os nossos interesses mais sujos, as nossas crueldades cotidianas e os nossos traumas históricos. Afinal, não somos o país da tolerância? Homofobia, racismo, sexismo, violência contra a mulher não cabem em território nacional. Mas, por trás da artificialidade que nos encobre, está o Brasil real. Aquele que só passa na TV quando convém.
 Somos todos Maju, somente quando esta angariou, à duras penas, seu próprio espaço, fugindo das margens as quais seria “destinada” a ocupar. Mas caso a Maju se transfigure na menina negra que pede esmolas no sinal, no “moleque vagabundo” que fuma crack, no menor que nos rouba a bolsa, o que cabe a ela é a redução das pouquíssimas possibilidades de ser Maju.  Vota-se, rotineiramente, a favor da intolerância, reduz-se a maioridade penal, encarcera-se, mais uma vez, o negro, o pobre, o favelado, e ainda assim, grita-se aos quatro cantos que fazemos parte de um Brasil que se aceita multicultural. Hasteamos a bandeira do multiculturalismo e o que dela escorre é o vermelho da fusão entre o verde e o amarelo positivados em nome da ordem. O sangue que, secularmente, escorre é negro, é indígena, é de matriz africana, é marginal.
Mas, afinal, não vivemos em uma democracia?  Democracia, cotidianamente, rasurada em nome de interesses particulares incrustrados no sujeito público de essência cordial. Ainda com as mãos sujas de sangue, tenta-se, em nome do capital e das empresas que o legitimam, apagar as memórias dos nossos maiores traumas: a ditadura militar e a escravidão. Vende-se, pois, a ideia de que somente os militares nos salvariam. Mas nos salvariam de quê? Da democracia? Da inclusão social? Da aceitação de nossas diferenças?
Felizmente, a democracia no Brasil amadureceu a ponto de não mais, como em um passado recente, ratificar a sugestão de mais um golpe. A rasteira que foi dada em Jango, com a conivência da elite e de uma classe média sugestionada a não pensar, mas apenas reproduzir o já minuciosamente planejado, derrubou as bases de uma democracia ainda imatura. E a imaturidade parece caminhar lado a lado da ignorância. Nesse sentido, não dá para ignorar os pilares, não democráticos, que sustentam os meios de comunicação no Brasil: o capital imbricado aos jogos de interesse tem como produto o monopólio da palavra. Dá-se, assim, voz, de maneira irresponsável, a palavra dinheiro, manipula-se a realidade, valendo-se de artifícios que sugestionam a população a reproduzir interesses sujos, sem ao menos percebê-los. Dessa maneira passam a coexistir dois países, coabitando supostamente o mesmo território: O Brasil que passa na TV e o Brasil que, de fato, existe.

O que se tem hoje é uma mídia que dissemina, reafirma e enaltece o famoso complexo de vira-latas que nos persegue há tempos. À conta gotas, midiatiza-se o complexo de vira-latas e vende-se a ideologia de que valemos menos, não somente para além das fronteiras brasileiras, mas também diante da supremacia do poder midiático. 
Sabiamente, as muitas vozes que emergem como uma espécie de contradiscurso ao monopólio midiático permitem romper com as hipocrisias instauradas e vislumbrar um Brasil cuja imagem é plural e reflete as diferenças que se tenta há séculos soterrar.

domingo, junho 21

O menino sou eu

Eu não preciso que você me diga quem eu sou.
E caso ainda não saiba, vou lhe dizer o que nem Freud precisa vasculhar para encontrar.

O que eu sou está estampado na cor da minha pele negra, nas ondulações da negritude de uma  história que resiste.
Morena não enaltece, ofende, desbota a minha cor.


Eu sou a herança de pisadas marginais.
Eu sou a prostituta na esquina.
Eu sou a mulher, cotidianamente, violentada pela cultura que seu machismo avaliza.
Eu sou o homossexual, diariamente, assassinado  e que rende as suas piadas de fim de semana.
Eu sou a travesti que não traveste em você o ódio.
Eu sou o índio sem oca, o cacique, ainda hoje, despejado da própria terra.
Eu sou  o menino na cruz.
Eu sou o menino sem nome,  sem os seus sobrenomes, sem a sua cor, crucificado, apedrejado,  enquanto você espera que o seu menino Jesus volte para lhe dar a redenção.

Pois, lhe digo que Jesus sou eu.
Eu sou o menino que você não vê.
Eu sou o dobrar da esquina, à beira da estrada, à margem da história.
O menino sou eu,
Eu sou o menino  que você escolhe, repetidamente, não ver.
Eu sou o filho do terreiro de Olorun que você não crê ser o legítimo filho do Pai.

Pai? Que Pai?
Eu sou menino sem berço, sem o seu berço,
tirado dos braços da mãe e lançado às periferias.
Eu sou  o centro da raiva que você  tolera.
E  estou, novamente , em nome do seu ódio, estampado, no centro da cruz.















domingo, março 15

O petróleo é nosso?

Felizmente não estudei em Miami.
Felizmente não compro a Miami que se estampa nas vitrines brasileiras  a cada esquina.
O que se produz hoje são consumidores.
Mas não dá  para comprar uma bolsa sem enxergar seu avesso. Não dá para comprar um sapato sem prescrutar suas pegadas.
É preciso saber em que chão pisar. E por saber pisar em solo brasileiro é que entendo que o subsolo  vale muito aos olhos de quem não tem petroléo próprio com o qual lucrar.
 Quantos golpes já foram patrocinados em nome do petróleo? A quem interessa, então, desqualificar a Petróbras a nada, para depois, vender suas migalhas em nome  da "honestidade" patrocinada pela mídia e seus jogos de poder?
Que venda-se, então, a Petrobrás a "Miami",  que vendam-se os fantoches brasileiros à pseudo- mídia do Brasil, mas não usem a bandeira da luta contra a corrupção quando o que se  está a hastear é a bandeira imunda pelos jogos de poder.

terça-feira, maio 27

Impedimento

Descobri que faço parte de uma das minorias de excluídos do Brasil. Faço parte da pequena parcela de brasileiros que tem completa aversão ao futebol. Nada de Cruzeiro, Atlético, Vasco. América, só mesmo se for o continente. Não gostar de futebol vivendo no Brasil é como não gostar de pizza na Itália, uísque na Escócia ou de chocolate, morando na Suíça. É como suprir uma antipatia por Fidel Castro, tendo que viver em Cuba.

Em meio a Parreira, Levir Culpi, Zagallo, Felipão, pênalti, meio-de-campo e centroavante, fico perdida, completamente bombardeada por termos com os quais não tenho nenhuma intimidade. No Brasil, para muitas pessoas, o documento de identidade tem menor valor que a carteirinha do time do coração. É com ela que a maioria dos brasileiros se identifica, diz ao mundo quem é. E é nesse momento que cada amante da chamada arte do futebol bate no peito e proclama, por exemplo: “Sou Vasco”.

Essa identidade é quase uma segunda pele, amor cultivado aos poucos em banho-maria e com pretensões de eternidade. Se por acaso o time do coração é rebaixado, o torcedor sente na própria alma a dor do rebaixamento. E tudo aquilo que ele fez pelo time? E aquela tarde em que ficou rouco de tanto gritar para que Ronaldinho deixasse de ser fominha e dividisse aquela bola?

Se não fosse por ele, se não fosse pelo fato de ele ter se matado pelo time, nunca teriam chegado à 1ª divisão. “É tudo culpa daquele técnico”, pensa. Se ele fosse o técnico – o torcedor – o time não teria sido rebaixado. Ele colocaria fulano como centroavante, sicrano como ponta-esquerda, beltrano como atacante e, pronto, o problema estaria resolvido. “Como pode existir um técnico tão burro que tira beltrano bem no jogo decisivo?”, questiona.

Em ano de Copa do Mundo, minha situação é ainda pior. A Bandeira do Brasil reaparece e o verde-amarelo vira uniforme nas ruas. Não há como fugir. Os bancos só funcionam nos intervalos de um “goooooool” interminável; nos bares, só se ouve falar de Neymar e Felipão; e a cerveja é a coadjuvante de uma torcida que só tende a aumentar. Por todo lado respira-se futebol.

Onde quer que esteja, sinto-me sufocada por um ar tóxico que não posso deixar de respirar. Sabem dizer o tamanho da coxa do Hulk, mas ninguém se lembra do tamanho da fome no país. O comportamento é quase sempre o mesmo: banalidades como PCC e guerra civil são postas de lado em nome da supremacia do futebol.

Afinal, não vivemos no melhor país do mundo? Não somos o único país pentacampeão? E vai-se assim distribuindo estrelas: uma estrela para o medo, uma estrela para a fome, uma estrela para o crime organizado, uma estrela para a guerra, uma estrela para o tráfico. Vive-se quase que em uma constelação em que Deus é brasileiro e PCC passa a significar não mais que “Parabéns Cacá!”.

À margem do Mineirão, do Maracanã, do Morumbi, do Pacaembu, da Galoucura, da Máfia Azul ou dos demais bilionários superestádios brasileiros, estou eu, que não sou nenhuma pobre “manchinha verde” em meio à massa, que tem verdadeira devoção pelo futebol.

Só me resta, então, pedir a Deus que me conceda um domingo em que Atlético e Cruzeiro, Palmeiras e Corinthians, Fla e Flu não invadam a minha sala, mesmo que seja através da televisão. Espero que essa ponte com Deus não seja feita por intermédio de São Jorge (padroeiro do Corinthians), porque aí, antes mesmo do pedido, já seria apitado mais um impedimento.

quarta-feira, outubro 16

O Deus no qual eu acredito come brigadeiros

Quem sabe eu não deva fazer voar urubus no lugar de cada beija-flor?
Talvez o mundo seja mesmo Palestina e Israel.
Talvez a vida seja mesmo a chuva borrando o quadro que o dia pintou.
Talvez a vida seja só o choro derretendo os olhos depois de cada gotinha de dor:
Olhos nublados, vida embaçada, urubu com asa de beija -flor.
Talvez o amor seja só esse pedacinho de corpo desocupado de alma:
O beijo só pela boca,
o corpo só pela bunda,
Amor pós romântico,pós Romeu,pós moderno, pró prazer.
Quem sabe um pastor, um profeta, um padre, um ateu
me convençam de que a vida são só onze dias de um outono em Nova York,
onde 3000 folhas caíram das árvores antes mesmo de secar.
Por enquanto, o Deus no qual eu acredito come brigadeiros.

Lírio

Quando nasci,um pai,desses que profetizam o destino dos filhos, disse: Vai, Lílian! ser lírio na vida.
Certidão de batismo, registrada em cartório: vai, Lílian, ser lírio na vida!
Não sei se bom ou ruim,
Não sei se petálas demais ou de menos,
O que sei,é que quem nasce com vocação para lírio,
não tem espinhos para se defender do veneno que se esconde
atrás do perfume de alguma outra flor.

Me deixe chorar

Me deixe chorar.
O meu choro é o pus das feridas da minha alma.
Não me peça pra jorrar força, quando é força o que transborda de mim.
A minha força vem da água que me purifica. Vem do banho que apaga as manchas que os ouvidos permitiram entrar no coração.
Não me peça pra fazer curativos, quando a infecção ainda está em mim.
Me deixe chorar.
É no meu choro que eu me reconheço gente.
Não impeça as gotas de cair. Deixe escorrer de mim o que não serve mais, como o sangue que escorre mensalmente do corpo da mulher, dizendo a ela que naquele mês não houve a necessidade da gestação.
A água me limpa os olhos, me desembaça a alma, descongestiona os sentidos, desencarde o coração.
Me deixe gritar com os olhos, como quem liga o rádio no volume máximo e dança ao som da própria dor.
Quando as palavras não libertam, quando o chocolate não alimenta, quando o remédio não cura...me deixe chorar.
Não me peça pra cortar o tratamento, antes do antibiótico fazer efeito. Não permita que as dores mais fortes tenham espaço pra se reproduzir dentro mim.
Me deixe chorar.
Deixe que o sal misturado à agua desinfete meu corpo, como a carne salgada que fica exposta ao sol na necessidade exata da sua higienização.
O choro é o remédio do corpo pra alma.
É no meu choro que eu me refaço humana.
Me deixe chorar, porque cada lágrima traz em si o antídoto indispensável para a cicatrização.

Vá me gestando aos poucos, meu filho...

Hoje eu queria estar aí, do lado de dentro de uma mãe que me protegeria do mundo.
E quando sentisse fome, receber dela o alimento...
Queria o silêncio de nenhuma crítica.

Se pudesse filho, fugiria pra dentro de mim e iria me deitar ao seu lado, quietinha, sem as vozes da solidão que não quero mais escutar.

Cuida de mim, meu filho.
Vá me gestando aos pouquinhos e só quando eu já estiver pronta
me permita voltar para o lado de cá.
Hoje eu tô tão cansada.
Tô aprendendo devagarzinho que o ar que eu sugava sozinha
agora eu tenho com quem partilhar.
E o ar aqui fora é impuro, requer muita força pra se depurar.
Eu vou filtrando só o que há de mais limpo, pra que dele você só receba o que te possibilite respirar.

Seque meu choro filhinho.
Me pegue no colo e não deixe essas vozes do mundo nos acordar.
Eles não sabem de nada.
Não podem me ver aí de dentro,
Não sabem quantos corações tenho pra carregar.

Vá me moldando, meu filho, me forme mãe mês a mês
pra que possa receber de você a luz
que ao final desses meses você virá em mim buscar.

segunda-feira, janeiro 7

Carteira assinada

Meu lugar não é mais aqui
Não me peça carteira assinada, quando são asas o que eu sinto em mim
Não me peça Gonçalves Dias quando é Mário de Andrade quem mora aqui

Meu lugar nunca foi esse
Prefiro "comigo ninguém pode" às rosas que pra mim cheiram vermelho demais

Nasci pra dormir quando os olhos fecharem
Sentir quando a fome vier

Me deixe com o meu português
que os pronomes retos ou tortos eu decido onde colocar

Me deixe cuspir
Cuspir nessa vida metrificada que mensalmente insiste em me engaiolar

Suma com seus relógios porque eu não nasci para ponteiros
Afaste de mim essa vida carteira assinada
Porque hoje eu decido o quão livres os meus versos devem ser
Porque despertador só funciona pra quem dá a ele o poder de acordar

Hoje eu quero dormir na medida do meu sono
Quero falar no volume natural da minha voz

E que os esforços pra me ouvir faça você
E que os medos de escutar tenha você

Porque eu vou falar na medida da minha necessidade
E o que você vai pensar, pense sozinho
porque eu não me preocupo com a cor da sua grama
Pra mim não interessa se você come alpiste ou caviar no jantar
Só o que me importa hoje é se minhas asas continuam intactas para voar.

terça-feira, agosto 7

Quem cura o sistema?

Há tempos que o problema no Brasil é de responsabilidade. Responsabilidade tomada em seu sentido mais amplo: responder pelos atos gerados. Parece que o que prevalece nesse país é um jogo de empurra de responsabilidades decrescente, que tem início no senado, perpassa as mais variadas empresas e órgãos nacionais e cai sempre nas costas do cidadão ou do consumidor, compactuando, assim, com o dito popular de que a corda arrebenta sempre do lado mais fraco.

As agências bancárias, por exemplo, que disseminam seus milhares de reais em minutos pagos nas mais diversas mídias, são incapazes de pagar quem opere com competência o seu próprio sistema. Quem já não ouviu alguma dessas frases?

_ “O sistema caiu senhora”;

_ “Não sabemos quando o sistema voltará a operar;”

_ “Basta que o senhor espere na fila até que o sistema volte.”

O que dizer então do nosso sistema prisional, nascido com o intuito de recuperar, aliena.

E os três poderes que nos regem enquanto brasileiros? Legislativo, executivo e judiciário, sustentados teoricamente no ideal de equilíbrio entre os poderes para que o sistema presidencialista faça valer o Estado Democrático de Direito, se corrompe e se perde em meio a um sistema em que a burocracia insiste em imperar.

E quem dá um basta no sistema? Quem responde por ele? Egocêntrico para não dizer sistemático, ele ganha vida própria e se comporta como criança mimada que tem a certeza de que o universo gira em torno do seu próprio umbigo infantilizado.

Eis aqui o problema dos muitos sistemas que regem o Brasil: a imaturidade. Mas não aquela que acompanha um processo cotidiano e esperado de evolução, em que o passar dos anos se une às experiências sadias. A imaturidade no Brasil parece ser inerente ao status de nação brasileira. A nossa independência surge de um grito rouco dado em meio às pressões internas e externas e, parece que desde aí, desde o nascimento, não aprendemos como efetivamente soltar a voz e engolimos a seco toda a inoperância de um sistema que não deveria nos calar.

Assim, meio sem voz, vamos contando nossa história enquanto brasileiros. Não há quem tampe os muitos buracos abertos ao longo de séculos, não há quem resolva as nossas cotidianas enchentes: Um sistema de saúde único e falido, um sistema educacional que deseduca, um sistema político que corrompe. E, quem muda o curso do sistema? Quem cura o sistema? Quais medicamentos usar? E será que a conta pelo uso dos medicamentos caberá também a nós pagar?












sexta-feira, agosto 3

Pós-modernidade

Eu não sei mais até onde eu posso...
Não sei mais até que céu eu chego...

porque nunca acreditei que pra falar com Deus, só com hora marcada
porque nunca acreditei que pra ver anjos, só com ingressos já comprados

Eu não pago pra ver
Eu não paguei pra ver e vi

Hoje eu assisto, do alto da minha miséria, as faixas de Gaza que penduram por aí
Hoje o que eu vejo é a grama do vizinho cada vez mais cara
E a alma do próximo cada vez mais distante, sendo esquartejada em meio ao salmão com molho de maracujá

O que se tem hoje é leilão de gente
E vende mais
E vale mais
quem tem prazer pra oferecer
Prazer em cápsulas, prazer em gotas, prazer no liquidificador
E bebe-se o egoísmo a goles largos
embebeda-se o mundo
Depois pergunta-se: por que Mianmar?

Por que a gente diz sim a Gaza?
Por que dar duas vidas a Bush?
Pra que mergulhar de cabeça no Tsunâme?

Pra onde vai o ser humano?
quantos já venderam a alma ao dinheiro?
E quem vai pagar pelas almas que não querem se afogar?

Cordão Umbilical

O amor que eu sinto por você dói.
Dói porque enquanto eu esperava sua chegada
você já fazia movimentos de partida dentro de mim.

Eu sabia que um dia você iria sair.
Sabia que cada chute sinalizava abertura de espaço
até o dia em que nossas barrigas não se procurariam mais.
E você foi a cada dia chutando mais forte
até deixar esse vazio dentro de mim.
A barriga ainda existe, mas agora é só ar o que habita aqui.
Agora o que eu sinto é a dor de uma partida eterna,
de um adeus que antecede a minha preparação de mãe;
de uma despedida que acontece a cada segundo.
É o corte de um cordão que não se rompe em mim,
e a parte desse elo que ainda existe em você
eu tenho por obrigação secar.
E assim você vai partindo
E assim vai caindo no mundo
E eu olho pra essa alergiazinha na sua pele e só penso em te devolver pra minha barriga.
Penso em entrar com a barriga na frente de cada perigozinho que se aproxima de você.
Penso em dizer não vá.
Fique pra sempre aqui dentro do meu peito, sugando de mim tudo o que há de amor.
Mas Deus me fez mãe e só as mães sabem que mais forte que a dor do parto
é a certeza de que o amor verdadeiro liberta,
mesmo que o cordão permaneça
pra sempre vivo dentro de nós.

Não adianta chorar o chocolate já engolido

Hoje eu comi chocolate porque eu queria dizer e não havia ninguém pra ouvir
Hoje eu comi chocolate só pra quebrar a dieta
Não sou mulher de dietas
Não me adapto a corpo da moda, bunda da moda, mas ainda assim subo em balanças...,

Minha alma não é de silicone,
Por isso e não só por isso, hoje só como chocolate
Como porque você não está aqui
Como porque você está aqui demais
Como porque quero comer e como
Como porque não quero comer e como

Hoje falta cacau em mim
Hoje eu como a compulsão da angústia de ter que vestir 38
Não adianta chorar o chocolate já engolido
Não adianta pesar o chocolate já mastigado
Pensar assim me alivia da culpa de ter que comer chocolate
Pensar assim me permite comê-lo de novo amanhã
Mas choro, mas peso, e recomo

Como chocolates porque hoje não sei o que comer pra tampar esse buraco
Não sei que tinta usar pra cobrir essa parede, então a tinjo da cor mais escura

Só sei que mulher é assim
Come chocolate hoje, chora, dorme, sangra até a última gota de cacau
Pra renascer linda e sem ao menos se lembrar do gosto do que a fez sangrar no dia anterior.

segunda-feira, junho 25

O Criador

Hoje não há um Deus que me ampare,
porque ele é o criador
ele é o criador
ele é o criador
ele cria em mim a dor de não ser quem ele é.

sexta-feira, junho 22

Cansaço

Eu estou cansada do trabalho que é ser mulher,
cansada do trabalho eterno do parto,
cansada da mãe que não mais adormece em mim.


Eu amo demais os anjos
Eu amo meu anjo Gabriel
Mas às vezes os anjos cismam de voar longe
e pra quem só tem pernas competir com duas asas é cansativo demais

Se tivesse outra chance pra escolher entre o gloss e o barbeador...
Eu ficaria com o batom vermelho
Eu rezaria para os anjos
Eu dormiria bem tarde, nos braços do pai
pra despertar no outro dia e descobrir que toda mãe já acorda, com a benção dos anjos,cansada demais.

quinta-feira, abril 7

Na superfície do caos

Na superfície da crosta, de costas para o caos, o que eu vejo é você.
_Pé-de-moleque pode, mamãe? Eu vou escovar o dentinho, eu prometo.
_Mamãe, agora eu sou Patati Patatá...
_Depois você me leva ao parque, eu vou andar de roda gigante, eu já cresci mamãe, não tenho medo mais. Quer ver que eu não tenho medo mais?
_Papai, por que papai do céu "fez eu" de João Gabriel? Como a gente chega lá na casa dele? Por que sua mãe foi morar com papai do céu, mamãe? Ela não gostava de morar aqui?

Você ali, criança encantada com o mundo para além da minha barriga, e nós aqui na superfície do caos.
Como contar para você filho, que o lobo não é mau, que mau mesmo é o ser humano?
Você diria:
_O que é ser humano mamãe?
Eu não sei mais filho....
Será que é quem precisa cercar com um arame que dá choque a sua casa para se proteger do "coleguinha" que não sabe brincar sem machucar o outro?
_Será que é quem põe fogo numa árvore só por que nunca a escutou chorar?
_Será que é quem vê o "amiguinho" com fome e tem medo de dividir o lanche?
Quem cura esse mundo filho?
Na beira, na superfície, do lado de fora, invólucro, embalagem, pedra dura, litosfera...
E lá dentro tudo é movimento, é tudo magma, tudo fervilha para uma hora explodir.
_Sabe filho, a gente já explodiu o mundo duas vezes, duas explosões mundiais: de um lado o poder, do outro a ignorância.
_ E quem ganhou mamãe?
_A ignorância.
_Tsunâme é uma onda gigante que engole gente igual o lobo faz mamãe?
_É sim.
_Então por que você diz que o lobo não é mau?
_Porque lobo não devora lobo, meu filho.

sexta-feira, junho 18

Palavra em preto e branco

Como se escreve a palavra preto?

À revelia da folha de papel em branco.
À revelia das muitas páginas em branco da história? História que não conta, história não contada, história que desconta séculos e séculos de omissão...

Como se escreve a palavra preto?

Tinta preta sobre o papel branco?
Tinta branca sobre a pele negra?
Timbre claro sobre a voz soterrada?
Tom escuro sob timbre branco?
Tom negro em manchas claras?
Tinta preta que resiste à superfície branca?
Sobram tintas ou faltam cores?

Por quantos séculos?
Até que século?
Até que seque a tinta?
Até que escorram as feridas?

Ferida em branco e preto?
Ferida em preto e branco?
Ferida sobre preto?
Ferida sob branco?

E depois?
Apartam-se as cores.
Quem sabe um dia a palavra em cores
e não mais em preto ou branco?

quinta-feira, junho 17

Aruanda

Ó minha santa de Aruanda,
Quitéria, minha mãe.

Ó, minha santa de África.
Vós que habita meus versos pretos,
meus livres versos pretos.

Vós que é rosa branca,
Vós que me banha a aura,
traz Aruanda pra mim.

Lave minha alma, minha mãe,
que eu lhe devolvo
alecrim, alecrim, alecrim.

Ó minha santa mãe África,
Ó minha santa mãe negra,

Que antes de santidade é terra,
Que antes de luz é corpo,
que antes de mulher é minha mãe.

Traz pra minha vida Aruanda,
que eu lhe devolvo
gratidão, gratidão, gratidão.

quinta-feira, dezembro 28

Atrás do sorriso de Deus

Aos poucos foi afastando o medo,para fazer renascer dentro de mim o amor
E chegou quando os armários ainda estavam abertos e em cada gaveta um pedacinho de mim precisando de arrumação.
A alma, ali parada como quem pergunta pelo corpo,
O corpo em estado de desocupação como se perguntasse por mim mesma
Mas, Deus ainda sorria para mim
A meia furada como que procurando alguém que lhe tampasse os buracos, o vestido 38 quase se entregando a compulsão de ser 42
E, eu ali, procurando saber para onde vão os beija-flores quando as flores se murcham,quem desmonta o arco-íris,em que posição fica o girassol quando é noite...
Mas, Deus ainda sorria para mim
Sorria como quem diz:Olhe no que se transformam as lagartas quando abandonam a parte que não lhes permite voar.
Eu me escondi atrás do sorriso de Deus.
E Ele me mandou voCê
Eu nunca imaginei gostar de alguém do meu tamanho
Achava que o amor tinha que ser maior que eu
E você foi me mostrando que o espelho,às vezes, é o nosso melhor argumento
Você tem me ensinado que nem todas as dores de cabeça se curam com o mesmo remédio;
que nem todas as palavras ecoam em vão;
que alguns homens podem ser mais do que o orgulho besta de carregar um aparelho reprodutor entre as pernas
Você é do tamanho da paz que eu quero para mim
Você é do tamanho do amor que cabe em mim
Hoje quando penso em luz, um pedacinho de você se ascende dentro de mim
Cada pensamento meu tem um espaço que é seu
Você é do tamanho do homem que quero ao meu lado
E se você vier...
Que a gente possa seguir de mãos dadas
Que cada medo possa ser dividido
Que cada alegria possa ser somada
Que vôce seja a luz para o meu medo do escuro
Que eu seja multidão quando se sentir só
Que o tempo seja para nós cura, não remédio
Que o abraço alcance mais que os braços
Que o beijo seja mais que a boca
Que o meu corpo encontre no seu corpo uma aliança que ultrapasse a superficialidade de duas bundas
Que meus olhos possam sempre refletir você
Que o respeito encontre em nós ressonância
Que a verdade se tranforme na nossa maior aliança
E que a gente possa sempre buscar um ao outro, atrás do sorriso de Deus.